Abstenção: Trabalho precário pune eleições europeias

22 mayo 2009 – Público (Madrid)

Desemprego em alta, protecção social em baixa. A Europa tem dado pouca atenção às camadas mais populares. Na opinião do politógo espanhol, Vicenç Navarro, esta realidade explica as elevadas taxas de abstenção que se anunciam

Todas as sondagens revelam que, nas próximas eleições europeias, a abstenção será muito elevada. Este desinteresse pela vida política não cessou de aumentar nos últimos anos, e isto muito antes da crise económica e financeira que vivemos actualmente. As causas desta abstenção são evidentes. Mas é necessário compreender o que se passa na UE.

1. O desemprego nos países da Europa dos 15 não deixou de aumentar desde a década de 1980; e as condições de trabalho da população activa degradaram-se (a parte da população activa que afirma trabalhar em condições de tensão passou de 32%, em 1991, para 44%, em 2005).

2. A taxa de crescimento anual da despesa pública do Estado-providência (reformas, saúde, alojamento) não cessou de baixar (passando de 6,2%, em 1990, para 4,8%, em 2004).

3. A cobertura social (em caso de doença, de incapacitação laboral ou de desemprego) diminuiu, bem como as remunerações (aquilo a que se chama massa salarial, que depende do nível dos salários e do número de assalariados) em percentagem do rendimento nacional (passando de 68%, em 1975, para 58%, em 2005).

Estes dados são indicadores da deterioração da situação social dos trabalhadores na Europa dos 15, enquanto que os rendimentos do capital aumentaram de maneira vertiginosa. De 1999 para 2006, os lucros das empresas aumentaram 33%, enquanto o custo do trabalho apenas aumentou 18%. Resultado, as desigualdades sociais aumentaram consideravelmente. E a população europeia está consciente disso, como o provam as sondagens.

Pelo menos 78% dos habitantes da UE dos 15 afirmam que as desigualdades são excessivas nos países respectivos. Esta polarização social dos rendimentos decorre das políticas preconizadas pelo consenso de Bruxelas (o equivalente europeu do consenso liberal de Washington) e aplicadas pelas instituições europeias, nomeadamente a Comissão Europeia (encarregada de zelar pela aplicação do Pacto de Estabilidade, responsável pela austeridade orçamental) e o Banco Central Europeu (cujas políticas monetárias beneficiaram imensamente a esfera financeira, em detrimento da estimulação económica e da criação de empregos). E a população está consciente disso. Tanto a Comissão Europeia como o Banco Central Europeu figuram entre as instituições menos apreciadas. Daí a decepção das classes populares em relação à construção europeia. Este descontentamento toca mais os partidos de centro-esquerda, porque os grupos sociais mais expostos aos malefícios destas políticas liberais, em especial o mundo operário, formam o eleitorado mais fiel dessa área do espectro político.

Se os partidos de centro-esquerda atravessam uma crise profunda, é porque se aliaram ao liberalismo quando estavam ao poder. Essas formações vão ter de fazer um grande esforço de autocrítica. Quanto à direita, deve o seu sucesso à lealdade da sua base eleitoral, constituída por categorias sociais de rendimentos elevados, beneficiadoras das políticas liberais, e a certa franja das classes populares, atraída pela mensagem nacionalista e anti-imigrantes, devido à grande precariedade que reina na UE. Porque os mais racistas não são os mais ignorantes, mas sim os que vivem em situações de maior precariedade.

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