Debate: Como preservar o milagre europeu

13 novembro 2012 – Dagens Arena (Estocolmo)

É verdade que a crise põe seriamente em causa o projeto comunitário. Mas, viajando pelo centro das regiões mártires das últimas guerras, percebe-se o que esse projeto trouxe ao nosso continente, escreve um jornalista sueco. E, se quisermos que a democracia não volte a perecer, é preciso não ter medo de fazer os cidadãos participar na vida política da UE. excerpts.

Este verão, viajámos pelas zonas orientais da UE. De Vilnius a Bialystok, depois seguindo a fronteira em direção à Bielorrússia e à Ucrânia, admirando a belas praças de pequenas cidades do Leste da Eslováquia, e até à Roménia.

Foi uma experiência muito intensa. Eu já tinha visitado muitas das cidades e regiões por onde passámos, mas foi logo a seguir à queda do comunismo, há cerca de 20 anos. O que testemunhei agora foi um milagre social, económico e político. As mudanças só podem ser comparadas com as dos anos históricos na Europa Ocidental, entre 1945 e 1970. Mas, enquanto a recuperação na Europa Ocidental dependeu dos EUA, a Europa de Leste ergueu-se devido ao poder da UE.

As notícias de Paris, Bruxelas e Berlim sobre novas reuniões de crise para salvar o euro acompanharam-nos ao longo da viagem. Mas nas tardes quentes na praça, em Prešov, a crise parecia não só distante mas também pertencente a outra esfera. Foi como se precisasse de me transportar para as fronteiras geográficas da União, para ver todo o quadro da crise.

A falta de clareza europeia tornou-se paralisadora. Quem percebe em que direção vai a política, para onde se encaminha a UE? Todos os debates e decisões políticas desenrolam-se e são tomadas à porta fechada. A crise do euro conduz inevitavelmente à questão da Europa e da democracia.

Tornamo-nos europeus em Auschwitz

Quem pode ainda evitar pensar no período anterior ao rebentar da guerra, em 1914? Ninguém percebia qual a finalidade de uma guerra, ninguém a queria, mas ninguém foi capaz de pôr de lado o prestígio nacional, para a impedir. Na abordagem da questão do euro, verifica-se um padrão idêntico. Sempre que o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia apresentam uma proposta política sugerindo responsabilidade comum – as euro-obrigações por exemplo – os chefes de governo travam a iniciativa. Países privilegiados como a Alemanha, a Finlândia e a Suécia zelam pelos seus interesses de uma forma conservadora, enganando-se a si próprios. Estão a empurrar o continente – e eles próprios – para o abismo.

A nossa viagem de verão transformou-se numa peregrinação europeia. Explorámos a periferia das grandes regiões a que o historiador Timothy Snyder chamou as "terras de sangue" ou "campos de morte" da Europa: o centro geográfico dos genocídios nazi e comunista, onde doze milhões de seres humanos foram mortos entre 1933 e 1944.

Foi uma expedição que se tornou uma chamada de atenção para o facto de que o projeto europeu não nasceu de uma euforia ingénua mas do medo daquilo que o continente tinha gerado. Quando vemos grupos de turistas que visitam sinagogas vazias em Praga, Cracóvia e outras cidades, apercebemo-nos de que a autoconsciência europeia – baseada na seriedade histórica – está a assumir uma forma mais definitiva. Tornamo-nos europeus em Auschwitz.

A UE é atormentada, há duas décadas, por uma evidente crise de legitimidade. Desde que a Dinamarca votou não ao Tratado de Maastricht, em 1992, a mínima ideia de alteração tem provocado pedidos de novos referendos. O "non e nee" em França e na Holanda [no referendo de 2005 sobre a constituição europeia] foi o mais desconcertante.

As elites políticas sempre encararam os pedidos de referendos como uma maldição. Mas deveriam interpretá-los como uma conquista do projeto europeu. Finalmente, o povo da Europa queria ter uma palavra em domínios importantes, comuns. O empenhamento revelava que o debate político na Europa se tornara… europeu.

Porque será que os políticos consideram os princípios básicos da democracia como sendo evidentes a nível nacional, mas ameaçadores a nível europeu? O seu principal argumento é que, na esfera comum, política e pública, não se materializou ainda um povo europeu – o chamado demo. Sem esse demo, a democracia é só uma quimera.

A crise do euro e a questão da democracia

O social-democrata sueco Carl Tham formulou este argumento num artigo publicado este verão: "a união política viva e democrática só pode ser criada numa situação em que os povos europeus experimentem um forte sentimento de pertença e solidariedade uns com os outros, em que as pessoas pensem em si mesmas como parte do povo europeu e tenham confiança nas instituições políticas”.

Mas esta mesma conclusão comum não assentará num equívoco? É altamente improvável que exista "um forte sentimento de pertença e solidariedade" nos diferentes Estados-nação, uma vez que as principais conquistas democráticas ocorreram no começo do século XX. "Confiança nas instituições políticas" não existia certamente e não havia uma esfera política e pública generalizada.

O debate sobre o logro dos intelectuais começou há um ano: onde estavam eles, quando o projeto europeu estava prestes a implodir? Muitos dos contributos para o debate foram publicados no notável site Eurozine. Mas, na realidade, a ausência de um debate franco e de pontos de vista explícitos dos políticos da Europa é mais alarmante.

Assim, é inspirador ler um editorial de Gerhard Schröder, publicado esta primavera no New York Times. Um político influente que viu a ligação entre a crise do euro e a questão da democracia. Schröder resumia o tema em três pontos: a Comissão Europeia deve evoluir para um governo eleito pelo Parlamento Europeu. O Conselho Europeu – os chefes de Estado – deve abandonar o poder e ser transformado numa câmara alta, com um papel semelhante ao do Bundesrat na Alemanha.

As pessoas mostraram-se sensatas

Não é preciso concordarmos com todas as propostas de Schröder. Mas este sugere uma orientação no sentido de uma possível democracia europeia. Isto pode evidentemente ser criticado como uma tentativa de impor a democracia "a partir de cima" – mas também pode ser considerado como um reconhecimento do desafio colocado pelos cidadãos da Europa, ao longo dos últimos 20 anos.

A praça em Cracóvia é uma das mais maravilhosas do continente. Na torre da catedral, a passagem do tempo é marcada por um homem com uma trompeta. As sombras da História são longas. É um bom sítio para se observar a Europa. Aqui, podemos pensar sobre o milagre político, a nova prosperidade e a democracia civilizada.

Muitos europeus do ocidente temiam o caos, quando as ditaduras de leste caíram. Estavam enganados. As pessoas mostraram-se sensatas. Esse facto deve inspirar esperança e confiança. Mas, a apenas 30 minutos de carro da praça, encontra-se a principal recordação do medo das trevas da Europa, que esteve na origem do projeto europeu: os campos de concentração de Auschwitz-Birkenau.

A democracia deve ser constantemente conquistada. Recuará, logo que nos instalemos no conforto. No outono de 1940, quando a situação na Europa estava no seu momento mais negro, a feminista sueca Elin Wägner comparou os ideais com as luzes das bicicletas: não se acendem até começarmos a pedalar.

A missão social democrática na Europa no outono de 2012 pode facilmente ser resumida através da metáfora de Wagner e de duas palavras: democratizar e politizar.

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