Eleições europeias: Cidadãos, ainda mais um esforço

24 maio 2009
Süddeutsche Zeitung Munique

Paris, Janeiro de 2009 - Militantes do Partido Socialista Europeu entregam o manifesto do Partido para as eleições de Junho. Foto de Vx Lentz.
Paris, Janeiro de 2009 - Militantes do Partido Socialista Europeu entregam o manifesto do Partido para as eleições de Junho. Foto de Vx Lentz.

O Parlamento Europeu é a única instituição supranacional do Mundo a ser eleita democraticamente. Porém, após trinta anos de existência, continua a ser considerado um assunto para elites.

Desde 1979, há um parlamento da Europa eleito por sufrágio universal e directo por todos os cidadãos da União Europeia. Em trinta anos, este Parlamento já teve seis eleições. As sétimas deverão realizar-se dentro de quinze dias e constituem um exercício democrático com uma amplitude sem paralelo, à excepção da Índia. O Parlamento Europeu é o único órgão de representação supranacional eleito democraticamente, em todo mundo, que é dotado de verdadeiros poderes. Os deputados a esta sétima legislatura terão, como tudo leva a crer, o privilégio de serem os primeiros eurodeputados a exercer uma efectiva capacidade de controlo e de decisão sobre toda a União Europeia.

A quem interessa isto? Aparentemente, a poucas pessoas. Na Europa, não há outro escrutínio que suscite tão pouco interesse e tanta indiferença como as eleições europeias. Após trinta anos de existência, o Parlamento Europeu continua a ser, aos olhos dos cidadãos, uma paródia de democracia reservada a algumas elites políticas.

No entanto, não faltam os cantores de loas à Europa. Na lista de associações para a promoção da Europa, constam nada menos de 52 institutos. Nos 27 Estados Membros, partidos políticos e fundações investem grandes somas na informação aos cidadãos, como se quisessem iniciar uma nova época das Luzes.

Neste momento, os sorrisos dos candidatos aparecem em todas as esquinas. Angela Merkel e os seus ministros não perdem uma oportunidade para nos recordar a importância do escrutínio, o padeiro decorou a montra com bandeirinhas azuis estreladas e, na praça do mercado, uma agência publicitária organizou um desfile de frangos gigantes depenados, para recordar aos cidadãos a importância da directiva europeia sobre os direitos dos consumidores.

Em vão ! Nada a fazer. O entusiasmo europeu não se reflecte na taxa de participação nas eleições. E como se isto não bastasse, no momento da sétima legislatura o Parlamento de Estrasburgo e as restantes instituições europeias sofrem pressões só comparáveis às que sofreu o treinador do Bayern de Munique após três derrotas consecutivas. Na verdade, os eurodeputados, os comissários, aos altos representantes, em resumo, toda a elite política europeia se agita freneticamente e não pára de discorrer acerca do dever cívico dos eleitores, a missão europeia, o euro e o desaparecimento, já antigo, dos postos fronteiriços. Seríamos levados a acreditar que todo o acervo europeu poderia desaparecer de repente, como se os eleitores tivessem de prestar um voto de confiança para não comprometer tudo o que de belo e grandioso a Europa já realizou. É nestes momentos que a Europa tão depressa nos surge como uma força para o futuro, como um monstro antidemocrático. É como se, de cada vez que o Bundestag se renova, os alemães tivessem de se pronunciar sobre a manutenção da Constituição.

Para um parlamento com trinta anos, isto é grotesco. A indiferença dos cidadãos em relação à Europa pode ser explicada de muitas formas mas nunca se pode lançar as culpas apenas às instituições. (É quase cómico ver que a UE chega ao ponto de explicar a sua verdadeira natureza no seu portal na Internet.) Os cidadãos também têm a sua quota-parte de responsabilidade. Os eleitores não devem deixar-se arrastar a contragosto para o sistema em que vivem. A Europa é de facto um grande desafio mas devemos mostrar-nos dignos dele.

Não devemos esperar que estas eleições sejam as últimas em que será ainda necessário recordar o motivo pelo qual esta experiência política única no Mundo merece um pouco mais de atenção por parte dos eleitores, e porque razão a união dos 27 Estados, maiores ou menores, representa um trunfo não desprezível num mundo em permanente evolução.

Factual or translation error? Tell us.