Migrantes sobre a rota dos Balcãs 2/5: Nesta Hungria que se isola

“Se vens para a Hungria, não podes tirar o trabalho aos húngaros!"
“Se vens para a Hungria, não podes tirar o trabalho aos húngaros!"
16 setembro 2015 – Visão (Lisboa)

Segunda parte da reportagem realizada por Móni Bense perto de Szeged, onde o Governo construiu uma barreira de arame farpado para impedir os imigrantes de entrar na UE e onde encontramos o lado mais sombrio das políticas de Viktor Orbán e aqueles que lhe resistem.

GPS 46.151984, 20.158615

“O radar térmico da fronteira está instalado ali”, aponta József Szécsi, 62 anos, pastor e agricultor, quase toda uma vida aqui em Térvár, onde acabámos de chegar. Mas o radar que verdadeiramente importa a József é o faro do seu companheiro, o pequeno e negro Rigó, cão com nome, corpo e jeito de melro. Apoiado no ancinho com que vai fazendo molhos de feno, este marinheiro da Panónia (como o músico sérvio Djordje Balasevic chama aos agricultores da Voivodina) precisa de um só grito de capitão e logo Rigó voa atrás das 23 ovelhas, reagrupando-as num ápice. Quando espalhado por todo este verde, o rebanho de József lembra-me aquela expressão que se usa nos dias em que o mar está pleno de ondas muito pequenas, provocadas pelo vento, criando novelos de espuma à tona da água. Diz-se então que “o mar está cheio de ovelhinhas”.

Térvár

Tér em húngaro, seria Trg em sérvio, significa praça. Vár deu Város/Varos em ambas as línguas, castelo, fortificação, povoação. Nesta “boca bilingue” que é qualquer fronteira, Térvár tanto poderia ter ficado num como no outro lábio, ficou na Terra Baixa húngara. São cerca de 30 casas, algumas a menos de 100 metros da linha divisória, 90 pessoas, provavelmente o lugar mais pacato por onde passámos em toda a viagem, um ilhéu de paz. Das escotilhas destas casas, a infinita planura verde-loira, que é branca no inverno, vai continuar a estender-se para norte, salpicada pelas ovelhinhas de Rigó e József, mas para sul o horizonte estará rasgado. “Da janela de minha casa, vou ver o muro”, diz o pastor. Todos os dias. E as ovelhas ou outros animais da aldeia nunca mais poderão, um único dia, voltar a ir trincar as folhas de erva dos campos vizinhos. “Embora seja proibido, no último inverno, por acaso, passei uma vez a fronteira, porque a pastagem estava melhor daquele lado”.

Tirando isso, continua József, a nova estrutura “não vai mudar a nossa vida nem vai resolver nada porque eles [os migrantes e refugiados] vão passar por outro lugar, vão passar pelo rio” e, com o ancinho, aponta na direcção do Tisza, um dos dois grandes cursos de água com que a Terra Baixa húngara abraça a Voivodina sérvia. Corre não muito longe daqui, esse irmão do Danúbio, quase o avistamos. “A polícia leva-os”, conclui o pastor, “mas eles não querem ficar na Hungria, querem ir para Londres, Alemanha e França. Costumamos ver alguns refugiados passar por aqui. Já vi uma família com um bebé muito pequeno. Coitados, fogem da guerra que há lá, no país deles. Vêm do Afeganistão”.

Afeganistão. Regresso ao futuro. Neste momento exacto da história do presente, em Térvár, a aldeia que tem um novo muro a crescer no quintal, ainda não tínhamos encontrado Sharbat, a rapariga afegã de 12 anos, fugida de Cabul com a mãe. Ontem, ela pode ter passado a fronteira aqui ou noutro lugar, dependendo por onde os traficantes tiverem direccionado o rebanho de refugiados onde ela e a mãe caminhavam – os traficantes, quais cães raivosos que lhes mordem os bolsos (e as vidas). Haveríamos de conhecê-la, mais logo à noite, nesse epicentro de encontros desta viagem que foi a estação ferroviária de Szeged. Ainda faltavam algumas horas para o comboio das 4h36m partir para Budapeste:

"Como te chamas?"

"Quem és tu? – responde-me ela, firme e desconfiada, num excelente inglês. – És da polícia?"

"Não, sou jornalista."

"Como é que eu sei que posso acreditar em ti?"

"Podes confiar nele." – tenta anuir Márk Kékesi, cidadão de Szeged, sociólogo, 38 anos, um dos poucos voluntários que vai estar ali uma boa parte da noite (nas semanas seguintes o grupo iria aumentar para várias dezenas), ajudando quem está à espera do comboio, à espera da Europa.

Mesmo com o apoio de Márk, ela não partilha a sua identidade.

"O que é que estás a escrever aí nesse caderno?"

"A tua história e a destas pessoas que viajam contigo." – respondo.

"Em todos os países por onde passamos, toda a gente está apenas a aproveitar-se da nossa situação. Não são só os dealers. Toda a gente tenta roubar-nos, trocam-nos dinheiro por valores errados, pedem-nos muito dinheiro para uma viagem de táxi…"

"É por isso que eu estou aqui" – interrompe Márk – "porque eu quero ajudar-vos e porque me envergonho dos meus compatriotas que se aproveitam da vossa situação."

"Como é que falas tão bem inglês?" – tento conquistá-la.

"Fui professora de inglês" – diz, orgulhosa.

"Eu também já dei aulas de inglês" – reage Márk – "somos colegas!"

E finalmente Sharbat dá-nos o maior sorriso do mundo (mas mesmo assim não nos dá o seu nome):

"Eu passava as noites a ler até às duas da manhã. Depois ensinava inglês às outras crianças [ela teria então 9, 10 anos]. Eu e a minha mãe saímos do Afeganistão há quase dois anos. Trabalhámos um ano na Turquia, eu e ela, para juntarmos dinheiro para o resto da viagem. Agora estamos aqui, vamos para a Alemanha. Eu quero ser médica. I have a dream… I just want a great future!"

"E vais tê-lo!" – e o maior sorriso do mundo agora é de Márk – "You’re a smart girl, you will make it!"

Curto-circuito na memória. Aos 12 anos, uma outra “rapariga afegã” era fotografada por Steve McCurry para um dos retratos mais conhecidos de sempre, aquela capa da edição da National Geographic que se tornou jóia de colecção e que o mundo viu há 30 anos, em Junho de 1985. Durante muito tempo não soubemos o nome daquela rapariga, capa de revista. Ela era apenas The Afghan girl, aluna de uma escola de um campo de refugiados de guerra. O seu olhar verde era o único nome que lhe podíamos dar.

"Como te chamas, quem és tu?"

Em 2002, Cathy Newman tirou o véu ao nome da célebre refugiada, chamava-se Sharbat Gula, e contou-nos a história dela até essa data, enquanto Steve McCurry a voltava a fotografar. “Os nomes têm poder”, escrevia então Cathy, mas o seu texto reconduzia o nosso olhar “para aquela fotografia de uma rapariga de olhos verdes como o mar. Os seus olhos desafiam os nossos. Mais do que tudo, eles perturbam. Nós não conseguimos desviar o nosso olhar dela”.

Em Fevereiro deste ano soubemos que Sharbat Gula, agora de apelido Bibi no falso bilhete de identidade paquistanês com que foi encontrada, continua a fazer parte dos 3 milhões de refugiados de guerra que vivem no Paquistão, oriundos do vizinho Afeganistão. Sharbat, a eterna refugiada.

“A história repete-se?”

Entre a rapariga afegã de 1985 e a nossa rapariga afegã de hoje (cujo verdadeiro nome provavelmente nunca saberemos) há 3 décadas de diferença, aproximadamente a mesma guerra. Sharbat Gula tem os olhos verdes, a Sharbat de Szeged tem os olhos castanhos, não menos belos. Mas não são os seus olhos que mais nos amarram, é a sua voz. Tal como o olhar da primeira Sharbat encheu a objectiva de McCurry, a força da voz com que esta Sharbat diz aquilo que sonha merecia ter ficado imortalizada no gravador de Márk Kékesi que, além de sociólogo, é um dos colaboradores da rádio Mi, uma emissora local independente. Mi significa nós, em húngaro e em servo-croata. E nós não conseguimos esquecer a voz desta mulher de 12 anos: “I have a dream… I just want a great future!

Regresso ao presente, para as últimas festas de despedida no dorso de Rigó, o cão-pastor com que Sharbat teria gostado de brincar. Deixamos Térvár e a fronteira por cima do ombro, não sem antes sermos identificados, pela primeira vez, pela polícia húngara e nos cruzarmos com um carro civil, matrícula de Viena, dois polícias austríacos lá dentro, fardados. Quando as nossas bicicletas são já duas formigas no retrovisor das autoridades, estamos a chegar a Tiszasziget. Se Térvár era um ilhéu, então Tiszasziget é uma das ilhas principais, talvez aquela que disputaria a Kübekháza o título de pérola da Panónia. Na terra de todos, entre a casa e a rua, os jardins mais floridos, cheios de rosas de todas as cores, são como corais no fundo do mar. Literalmente no fundo, porque o ponto mais baixo, em altitude, de toda a Terra Baixa, e de toda a Hungria, é aqui.

GPS 46.236392, 20.170365

“Se vens para a Hungria, não podes tirar o trabalho aos húngaros! Consulta nacional sobre imigração e terrorismo”. É já às portas de Szeged, quinze quilómetros pedalados desde a última paragem perto da fronteira, em Tiszasziget, que nos deparamos com o primeiro cartaz gigante do governo promovendo o mega-inquérito. Está apenas em húngaro, logo é altamente improvável que algum dos refugiados em trânsito para a Europa rica do norte pudesse compreender a mensagem que lhes é dirigida. Não é só na Grécia que há consultas decisivas para a história da Europa na primavera-verão de 2015. Na esquina de Maio para Junho, todos os cidadãos húngaros receberam em casa uma carta do primeiro-ministro Viktor Orbán com o dito questionário, composto por uma dúzia de perguntas. A resposta podia seguir gratuitamente na volta do correio ou pela internet, sempre de forma voluntária. Igualmente voluntárias, chegaram outras respostas, como a campanha anti-anti-imigração, promovida pelo Vastagbőr (um blogue, cujo nome significa pele rija) e pelo Magyar Kétfarkú Kutya Párt (o Partido Húngaro do Cão com Duas Caudas) que, em conjunto, recolheram doações individuais no valor de 33 milhões de forints (cerca de cem mil euros), que resultam em 80 cartazes, plasmados na forma, alterados no conteúdo, a criticarem os slogans do governo. Há cartazes em inglês, “Desculpem-nos pelo nosso primeiro-ministro!” ou “Por favor, queiram desculpar-nos por o país estar vazio, fomos para Inglaterra”, numa alusão à própria emigração de cidadãos da Hungria para um dos destinos mais desejados pelos refugiados; mas há ainda outras contra-mensagens, em húngaro, incluindo uma hiperbolicamente irónica, “Odiamos toda a gente!”, ou uma outra em que se volta a ouvir a voz de Estêvão I (figura idolatrada pelo próprio Orbán, quando lhe convém), com uma frase do rei-santo em letras bem grandes, “um país de uma língua única e de costumes únicos é um país fraco e destinado à falência”.

“Estes protestos”, como a campanha anti-anti-imigração ou outros actos mais isolados e espontâneos “são acções muito motivadas, mas, independentemente da consciência dos seus autores, são gestos desesperados, coisas que vêm de dentro, de um puro desespero, mas não creio que exista qualquer tipo de esperança”, irá dizer-nos o director do Centro Cultural Grand Café, Zoltán Lengyel, quando o encontrarmos no cinema Casablanca, no centro de Szeged, a terceira maior cidade do país. Este professor de literatura sente que a desobediência civil praticada por alguns activistas é a forma que eles encontram de continuarem a respirar, dia-a-dia, no meio deste “desespero do presente”. Mas antes de sintonizarmos melhor as ideias (e a música) de Zoltán, o nosso radar detém-se em Rita Szlavkovits, jornalista free lancer, que veio ter connosco num café junto à praça da catedral, onde estava a decorrer um ensaio para o próximo festival de ópera, um dos mais importantes da Hungria. Mal ela pousou a sua mala preta em cima da mesa, saltou-me logo à vista uma mancha branca que, enquanto conversávamos, ela ia tentando limpar com a unha, quando a mão não estava ocupada com um cigarro. Era a prova de que, dias antes, além da pele de repórter, Rita quis vestir a pele de cidadã: com outros colegas e amigos, ela pintou com tinta branca as frases escritas em alguns dos tais cartazes gigantes da consulta nacional sobre imigração e terrorismo que estão espalhados pela sua cidade. Foi assim, apenas assim, que ela respondeu às doze perguntas de Orbán.

E à eterna pergunta, Rita, a história repete-se? “Tenho medo. As pessoas achavam que certas coisas não podiam voltar a acontecer na Europa, mas estão a acontecer. Perdi a confiança na Europa vendo as reacções a esta crise e por isso tenho medo. A Europa tomou decisões de logística militar, como a hipótese de bombardear barcos vazios [na costa da Líbia], o que significa que não matas aquelas pessoas mas matas os meios que as poderiam salvar”. Mais uma passa no cigarro. “Também tenho medo porque aqui na Hungria o governo pode mudar uma lei de um momento para o outro e isso cria uma sensação de insegurança. Por exemplo, foram criados aqueles grupos de guardas do campo, para as zonas rurais, que não são polícias, mas que têm porte de arma e que têm a possibilidade legal de identificar e algemar pessoas. Se existe uma lei que permite formá-los e lhes dá o poder de ter uma arma, claro que isso assusta”. A ópera em fundo dramatiza o que estamos a ouvir. Parecendo indiferente à música, Rita continua a sua ária da actualidade, olhando para um outro muro que se começa a erguer dentro das pessoas – o medo de cada um diante do próximo: “há dias, a minha filha viu uma rapariga africana, no autocarro, que era muito bonita. Estava a olhar muito para ela, por ela ser bonita, mas ao sentir-se tão observada, a rapariga africana zangou-se e saiu do autocarro na paragem seguinte”. E há, ainda, o muro do desconhecimento: “na Hungria, ninguém sabe o que se está realmente a passar no Médio Oriente e nos países de onde vêm estas pessoas”. No inverno de 2014 para 2015, a rota balcânica era percorrida por uma maioria de migrantes kosovares, embora já existisse uma vaga crescente de refugiados de guerra vindos do Médio Oriente, mas na primavera e no verão esse fenómeno consolidou-se e, desde então, a grande parte desta maré humana, mais de três quartos, é formada por pessoas vindas da Síria, do Iraque e do Afeganistão. “Se começassem a bombardear a minha cidade, eu também pegava nos meus filhos e ia embora”, suspira a jornalista.

Rita, com pouco mais de meio século de vida, tem um sorriso jovem de onde lhe saem palavras com a pele rija. É essa a sua força contra o muro, a sua resposta ao medo que nos atravessa, porque quem tem memória, tem medo. Ela não pode falar à sua filha com o mesmo tom de crença no amanhã com que o poeta voivodiniano e jugoslavo Vasko Popa se dirigia à própria Rita, aos “filhos sem memória, sem pecado original”, a geração da paz que nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, como esta repórter veterana. Popa cantava a liberdade daquela nova geração, erguida sobre os gritos de “Nunca Mais!”, e cantava-a com um tal entusiasmo poético que o escritor Cláudio Magris, percorrendo estas mesmas terras no seu Danúbio, avisava que “a ausência de memória e de consciência do conflito moral faz com que os filhos invocados se pareçam com uma massa para lá do bem e do mal, amorfa e incolor, sem pecado e sem felicidade, inocente e oca” e logo homens e mulheres mais permeáveis à repetição da história. Mas Rita não é uma filha sem memória: a avó era judia húngara, o avô pescador da Dalmácia que desertou do serviço militar. Em 1944 – o pai de Rita era ainda criança – os avós perderam tudo nos bombardeamentos a Novi Sad. Saíram de lá a pé, com a vida toda numa mala, e vieram para a Hungria (o apelido dela, Szlavkovits, já nos tinha feito adivinhar uma família migrante). Em 1954, o pai da jornalista foi expulso da Faculdade e ficou na cadeia meio ano, como prisioneiro político. Quando recuperou a pseudoliberdade, foi obrigado a trabalhar como mineiro. Todos os dias tinha de apresentar-se na esquadra da polícia. Apaixonou-se pela filha do chefe da esquadra, a mãe de Rita. Em 56, depois de falhada a revolução de Outubro, o jovem casal foge para a Alemanha, onde vive num campo de refugiados. Quando Rita nasce, em 63, a família já estava de novo na Hungria, graças a uma amnistia. O “comunismo goulash” não iria chegar ao fim sem que antes a própria Rita ficasse a saber o que era “embalar a trouxa e zarpar”. De 87 a 89 ela deu aulas de russo nos antípodas da cortina de ferro, em Oregon, nos Estados Unidos, para onde acompanhou o marido que ganhara uma bolsa de investigação científica. Eles voltaram em pleno “Outono dos Povos”, com a renovada esperança de um novo início, naquela época em que era anunciado à pressa o “fim da História”. Não era. A história que um dia Rita poderá contar aos possíveis netos continua, quando dez anos mais tarde, a família perdeu a última ligação a Novi Sad, na Voivodina sérvia. O pai dela ainda tinha um pequeno mercado de peixe que acabou destruído pelos bombardeamentos da NATO, porque estava localizado perto de uma das pontes atacadas. Chamaram-lhes “danos colaterais”. Não, Vasko Popa, a história não deixa Rita ser uma filha sem memória.

Mas quais são afinal, para memória futura, as doze perguntas da “consulta nacional sobre imigração e terrorismo” a que Rita não respondeu?

“1. Até que ponto é que o alastramento do terrorismo é importante para si no contexto da sua própria vida?

  1. Na sua opinião, a Hungria poderá tornar-se num alvo do terrorismo já nos próximos anos?

  2. Concorda que políticas de imigração erradas contribuem para o aumento do terrorismo?

  3. Sabia que os imigrantes económicos atravessam a fronteira ilegalmente e que, ultimamente, o seu número aumentou vinte vezes?

  4. Concorda com a opinião de que os imigrantes económicos colocam em perigo os postos de trabalho e os meios de subsistência dos húngaros?

  5. Na sua opinião, as políticas de Bruxelas em relação à imigração e ao terrorismo falharam?

  6. Apoiaria o governo no seu esforço para introduzir um conjunto de regras mais rígidas relacionadas com a imigração, em oposição a Bruxelas?

  7. Apoiaria uma nova legislação que permitisse ao governo colocar sob detenção os imigrantes que entram ilegalmente no país?

  8. Na sua opinião, deveriam esses imigrantes que entram ilegalmente no país ser devolvidos aos seus países no espaço de tempo mais curto possível?

  9. Concorda que esses imigrantes económicos que ficam na Hungria deviam ter de trabalhar para cobrirem os custos da sua subsistência?

  10. Concorda que a melhor forma de combater a imigração é oferecer ajuda económica aos países de origem dos imigrantes?

  11. Concorda com o governo que, em vez de destinar verbas para a imigração, nós deveríamos apoiar as famílias húngaras e as crianças que ainda vão nascer?”

(fonte: Hungarianspectrum)

Zoltán Lengyel também não respondeu a esta dúzia de perguntas do seu primeiro-ministro. O director do Centro Cultural Grand Café acaba de doutorar-se em literatura comparada, com um trabalho sobre o conceito de fé em Walter Benjamim, “que foi também um refugiado no seu tempo”. Este jovem intelectual, professor de literatura, fala num tom sombrio. Parece que há pouco futuro dentro das suas palavras, embora ele diga vincadamente que não é “uma pessoa pessimista, mas as coisas infelizmente estão como estão e eles abusam da situação”. “Este governo suga-nos tudo, usando os instintos mais básicos das pessoas. Porque as pessoas, em geral, não têm qualquer consciência histórica; pensam apenas em como conseguir o seu pedaço de pão para amanhã. Por isso, esta propaganda funciona”, sentencia Zoltán, ampliando mesmo a sombra: “nós estamos aqui a beber uma cerveja e ali na mesa ao lado está um grupo de pessoas rom. Eu não dou um ano para que isto talvez possa não ser possível”. Este “aqui e ali” é o café-bar do cinema Casablanca, onde um grupo de pessoas acaba de entrar para a próxima sessão de Saul fia (O filho de Saul), uma história passada em Auschwitz, realizada pelo húngaro László Nemes, que conquistou o Grande Prémio do Júri em Cannes, há poucos meses. A personagem principal do filme é um judeu húngaro que se chama Saul Ausländer, apelido que significa, em alemão, o forasteiro, o estrangeiro – aquele de uma outra terra, o outro.

Zoltán Lengyel é também vocalista, multi-instrumentista (incluindo guitarra portuguesa) e letrista dos Médeia Fiai, os Filhos de Medeia, um grupo de rock experimental de Szeged, sem grande cunho sociopolítico, diz ele, uma espiral de sons soturnos, ouço eu, como banda sonora que nos leva pela estrada fora a caminho de mais um final infeliz. Infidel 88, o último álbum dos Fiai, que muito provavelmente faz parte da playlist da Radio Mi, foi gravado no inverno passado, do outro lado da fronteira, em Subotica, na Sérvia. No regresso a casa, depois das gravações, Zoltán fez de carro, à noite, o percurso que alguns refugiados faziam então a pé. “Eles caminhavam, com crianças, na berma da autoestrada, sem nenhuma luz. Era uma imagem triste, apocalíptica”. Assim como Walter Benjamim se diz cansado dos bombardeamentos, numa das letras escritas e cantadas por Zoltán, estes refugiados estão cansados dos estrondos das guerras de hoje e fazem, tal como Benjamim, um caminho que, muitas vezes, “já não é um caminho”. Assim como o filósofo refugiado que se suicidou em 1940, na fronteira dos Pirenéus mediterrânicos, eles atravessam a Europa a pé porque, tal e qual escreveu George Steiner, um outro refugiado que viria a ser filósofo, “Europe has been, is walked”. Em todos eles que caminham para e através da Europa, a Europa caminha, sem caminho, perdida no seu próprio GPS. Algures entre Cabul e Portbou, entre Damasco e Szeged.

This article is published in association with #OpenEurope.

O projeto #OpenEurope reúne vários meios de comunicação, ONGs e associações europeias e que visa “contar as solidariedades concretas que se construem para ajudar os imigrantes e defender um projeto europeu fiel aos seus valores do acolhimento”. Os participantes incluem CaféBabel (Europa), Correct!v (Alemanha), Le Courrier des Balkans (França), Efimerida ton syntakton (Grécia), Hulala (Hungria), Infolibre (Espanha), Internazionale (Itália), Inkyfada (Tunísia) e Mediapart (França).

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