Após as legislativas em Portugal: Uma nova esquerda emerge na Europa

16 outubro 2015
France Inter Paris

O resultado das eleições do dia 4 de outubro confirma uma tendência latente no seio da esquerda europeia: a afirmação de partidos tão hostis às políticas de austeridade europeístas.

Para Portugal, a alternativa é clara. Ou a coligação de direita cessante se alia aos socialistas após ter perdido, no passado dia 4 de outubro, a maioria absoluta ou os socialistas abrem uma nova pagina política em Lisboa, ao aproximar-se do Bloco de Esquerda para governar com esta nova esquerda portuguesa próxima ao Syriza e ao Podemos.

Até há poucos dias, ainda ninguém tinha apostado na segunda hipótese. Os socialistas portugueses pareciam destinados a formar uma grande coligação com a direita, como as várias já existentes na UE e, nomeadamente, na Alemanha. Estava quase escrito, mas agora, depois de várias consultas com o Bloco de Esquerda, o líder dos socialistas, António Costa, anunciou ontem que tinham chegado a “pontos de convergência”.

“A nossa principal preocupação”, acrescentou, “é encontrar uma solução estável, credível e coerente que exprima a vontade da maioria dos portugueses e responda às necessidades do país de defender os serviços públicos, virar a página da austeridade e respeitar os compromissos internacionais de Portugal”.

A nova esquerda, por sua vez, apresenta as coisas como já feitas. “É o fim do Governo de Coelho”, disse a sua porta-voz, explicando que o primeiro-ministro cessante já não tem a maioria no Parlamento e que não existe outra solução que não “a alternativa que o país precisa”. Por outras palavras, a nova esquerda está pronta para governar com os socialistas e, quer isso aconteça ou não, a única possibilidade, o simples fato de ser fortemente considerada, reflete a amplitude e a profundeza das evoluções políticas em curso na Europa.

Num ano, a União assistiu sucessivamente à aparição do Podemos, que é uma parte firme no panorama espanhol, ainda que o movimento não esteja atualmente a marcar passo nas sondagens. Em seguida, foi a vitória do Syriza e a sua confirmação pelos eleitores gregos no mês passado. Paralelamente, os militantes e simpatizantes do Partido Trabalhista britânico também elegeram como seu líder, Jeremy Corbyn, um partidário declarado dos investimentos coletivos e da redistribuição das riquezas por diversos tipos de tributação e, agora, é a nova esquerda portuguesa que poderá – por agora é apenas uma possibilidade – assumir o comando.

Uma nova esquerda europeia está a afirmar-se, tão hostil a todas as ideias de saída da União, como às políticas económicas impostas pelas direitas europeias, atualmente maioritárias entre os Vinte e oito. Uma cena política pan-europeia está a ganhar forma e os debates que esta irá gerar são as melhores coisas possíveis para a revitalização e consolidação da União.

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