Menores refugiados na Europa: Duas vezes vítimas

28 outubro 2015
VoxEurop

Imigrantes antes de se registarem no campo de Opatovac (Croácia), 23 de setembro de 2015.
Imigrantes antes de se registarem no campo de Opatovac (Croácia), 23 de setembro de 2015.

Os menores representam até 1/4 do total dos imigrantes chegados à Europa nos últimos meses. O seu controlo e gestão apresentam muitas dificuldades, segundo as ONG e associações de ajuda.

Campo de refugiados de Opatonac, Croácia. A chorar sem parar, um menino com um máximo de seis anos grita e mexe-se com tanta brusquidão que parece que vai colapsar. Hoje, quando se escreve esta reportagem, no campo de refugiados da localidade croata de Opatovac, na fronteira com a Sérvia, alguém teve a ideia de separar as crianças das suas respetivas mães durante o processo de identificação, mas, desorientadas, muitas recusam-se a obedecer. Veem as mães atrás da vedação e ficam desesperadas. Os voluntários brincam com elas e tentam acalmá-las. Mas não é uma tarefa fácil.

Segundo as estimativas da Unicef, cujo pessoal se encontra no terreno, as crianças representam 25% dos quase 200 mil refugiados que a Croácia registou desde o passado 16 de setembro (quando, após o encerramento da fronteira entre a Sérvia e a Hungria, os imigrantes começaram a passar pela Croácia). Têm idades variadas e quase todas apresentam traumas que não desaparecerão facilmente. E não só. “Além dos danos psicológicos provocados pela sua situação, têm feridas nos pés de tanto caminhar, doenças digestivas devido à falta de condições higiénicas e infeções pulmonares por dormirem ao relento”, conta Valentina Otmatic, diretora da UNICEF da Croácia.

O que estas crianças enfrentam é tão dramático que parecem adultas. É este o caso de Bahir, um adolescente sírio de 14 anos que, quando o encontrámos, discutia com o irmão a forma de resolver os obstáculos existentes para chegar à Alemanha. No entanto, pouco depois, caiu na realidade e deixou-se cair nos braços de um jovem curdo pouco mais velho do que ele. Conheceram-se durante a viagem e, tal como outros, formaram um grupo para proteger-se em caso de perigo. “Para onde nos levam?”, pergunta Bahir.

Ninguém responde. À sua volta, há uma aglomeração de pessoas, filas de tendas de campanha militares e agentes hercúleos da unidade de intervenção policial. No local também se encontra uma família de afegãos com uma menina, que tem umas manchas suspeitas no rosto, e a uma mulher síria, Afgah, que de vez em quando toca na barriga como se tivesse o peso do mundo nos ombros. Na verdade, casou-se antes de iniciar a viagem e está agora grávida de cinco meses. Tal como muitas mulheres grávidas entre os refugiados, quer continuar o seu trajeto, apesar da sua condição.

Menores sozinhos

Extremo, sim. Como as crianças que sozinhas estão a percorrer quilómetros e quilómetros para alcançar a Europa. Sozinhas, sim. “A rapidez com que esta migração está a ocorrer está a proporcionar fenómenos pouco frequentes, como o de grandes quantidades de menores que viajam sozinhos”, diz Otmatic, realçando que é urgente a criação de um sistema mundial para acompanhar estas crianças e evitar que caiam em redes criminais.

Lydia Gall, responsável regional da Human Rights Watch (HRW), também acredita que procedimentos como dividir as famílias para identificá-las, no meio de enormes quantidades de pessoas, contribui para que os refugiados menores percam o rastro dos seus familiares. “As pessoas estão a perder-se no meio de tantas más interpretações, fronteiras encerradas, funcionários e trabalhadores sociais sobrecarregados”, segundo Gall. Tanto que, na estação de comboios de Viena, já foi colocado um cartaz onde colocam anúncios desesperados de imigrantes que perderam os seus familiares durante a viagem.

Ainda assim, estes fenómenos não são exclusivos dos menores que passam pelas rotas dos Balcãs.

Também é uma situação emergente na fronteira entre Espanha e Marrocos e nas ilhas sicilianas de Itália, onde estas crianças chegam a bordo de botes frágeis depois de terem feito uma perigosa viagem pelo mar. Desta forma, há poucos dias, a secção italiana da UNICEF recordou que apenas nos primeiros seis meses deste ano, as autoridades europeias registaram 106 mil pedidos de asilo de crianças imigrantes. A organização Save The Children, que também trabalha nos locais de chegada destes menores, apresentou números ainda mais aterrorizantes. “Nos primeiros 9 meses deste ano, 411 567 pessoas atravessaram o Mediterrâneo, 11 257 eram crianças e 8 560 estavam sozinhas”, indicou a organização.

“Tinha 7 anos e meio quando fugi de Eritreia. Fi-lo porque me queriam obrigar a cumprir serviço militar e isso teria acabado com qualquer esperança de encontrar um futuro melhor”, declarou recentemente a um diário italiano Tesfai, um menor eritreu que demorou 8 anos a chegar a Itália. “Foi por isso que fugi”, relatou o agora adolescente, que atualmente se encontra são e salvo e encontrou um lugar no norte deste país europeu.

Outro testemunho é o da associação El Puente Solidario, que foi fundada em setembro do ano passado para ajudar as crianças subsarianas que se encontram em Tânger e têm dificuldades em atravessar a Europa devido à vedação fronteiriça espanhola. Um imigrante da Libéria, Aissatou Toubarry, que criou a organização, explicou que grande parte destas crianças têm histórias de vida terríveis. Como, por exemplo, ser filhos de opositores políticos em países em que isto é um perigo mortal, ou ser oriundos de famílias poligâmicas e ter sido rejeitados pelos seus pais. Além disso, em Marrocos, as autoridades não lhes concedem um tratamento especial.

Claro que tudo isto é também um desafio para as organizações e as autoridades que detetam a presença dos menores que chegam sozinhos ao território europeu. “Quando nos apercebemos de que um imigrante é menor, avaliamos muitas coisas: se há alguém no grupo que cuide dele, a idade e o estado de saúde. Tentamos também, se for possível, contactar as suas famílias no país de origem. Depois decidimos se os repatriamos, se os entregamos aos serviços sociais do país a que chegaram ou se permitimos que sigam viagem”, confessou uma cooperante. “No entanto, a realidade é que se trata de uma situação muito complexa, pois é impossível saber com certeza o que é melhor.”

This article is published in association with #OpenEurope.

O projeto #OpenEurope reúne vários meios de comunicação, ONGs e associações europeias e que visa “contar as solidariedades concretas que se construem para ajudar os imigrantes e defender um projeto europeu fiel aos seus valores do acolhimento”. Os participantes incluem CaféBabel (Europa), Correct!v (Alemanha), Le Courrier des Balkans (França), Efimerida ton syntakton (Grécia), Hulala (Hungria), Infolibre (Espanha), Internazionale (Itália), Inkyfada (Tunísia) e Mediapart (França).

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