Transição energética na Alemanha: Quão “verde” é o líder europeu?

5 novembro 2015
De Standaard Bruxelas

A mina de carvão Garzweiler II em 2008.
A mina de carvão Garzweiler II em 2008.

Desde que Angela Merkel anunciou a sua Energiewende, em 2011, a Alemanha é considerada como o país mais avançado no uso das energias renováveis, em termos mundiais. No entanto, existem obstáculos na transição para uma economia sustentável e “verde”.

A empresa de serviços energéticos RWE é proprietária da igreja de Immerath. Na realidade, é proprietária de todo o município, ou pelo menos do que sobra dele. Há sete anos, Immerath, perto de Aachen, tinha 1500 habitantes, hoje apenas permanecem 30.

Em 2017 é provável que todo o município desapareça na cova gigantesca que as escavadoras estão a fazer na paisagem circundante. É aqui que se situa a mina a céu aberto Garzweiler II, com um perímetro de 45 quilómetros e uma profundidade de 230 metros. A proprietária, RWE, planeia extrair lenhite até 2045, nessa altura, 12 municípios terão perecido na cova gigante.

Paradoxo

Normalmente o Governo alemão toma conta dos seus cidadãos, e assim o fez quanto aos de Immerath. A alguns quilómetros do antigo município, foi construída uma nova cidade, chamada “Neu-Immerath”, incluindo uma nova igreja. Ainda assim, parece estranho que um país que é conhecido, em todo o mundo, pelas suas políticas energéticas ecológicas e progressivas utilize como uma fonte substancial de energia o carvão, quando este é de longe o combustível fóssil mais poluente.

“É efetivamente um paradoxo”, declara Christian Hey, secretário-geral do influente Conselho Consultivo sobre o Ambiente alemão. Os investimentos em carvão são uma preocupação constante para o Conselho. Por causa da questão da lenhite, a Alemanha pode não alcançar as suas ambiciosas metas climatéricas de reduzir as suas emissões de carbono em pelo menos 40% até 2020.

Efeitos secundários indesejáveis

Quando os reatores nucleares se fundiram em Fukushima, depois do tsunami e terramoto de 2011, a chanceler Angela Merkel decidiu que a Alemanha iria deixar a energia nuclear em 2022. Simultaneamente, o país tinha de dar um grande salto em frente nas energias renováveis, o objetivo é alcançar entre 40% a 45% de energia renovável em 2025; e pelo menos 55% em 2035.

Mas um dos indesejáveis efeitos secundários dessa decisão foi que o carvão voltou a ser popular. Em 2013, 45% da produção elétrica alemã, a taxa mais elevada desde 2007, foi gerada queimando este combustível fóssil, altamente poluente. As emissões de CO2, que tinham descido 27% entre 1990 e 2011, subiram novamente.

Será que isto significa que a famosa Energiewende, uma política que tornou a Alemanha um país líder mundial em energias renováveis, não está a obter os resultados desejados? Christian Hey abana a cabeça e declara que “continua a ser uma decisão sensata, que trará vantagens a longo prazo para o clima e a economia”.

O setor da energia renovável na Alemanha fez sem dúvida grandes progressos. “Atualmente um terço de toda a eletricidade provém de fontes sustentáveis, o que é quatro vezes mais do que há quinze anos”, declara Hey.

Participação dos cidadãos

De acordo com Rainer Baake, subsecretário de Estado para a transição energética, este sucesso também se deve à participação dos cidadãos. Os alemães mostraram não só grande interesse em participar neste esforço, mas também foram convidados a investir em projetos locais. É por esse motivo que, metade da produção de eletricidade proveniente de energias renováveis é detida por particulares e não por empresas privadas.

Os cidadãos também foram encorajados por um generoso sistema de subsídios, em que foi prometido aos produtores locais de energia solar e eólica preços fixos e acesso prioritário à rede elétrica. Consequentemente, investir quase não tinha risco.

“Quanto mais rápido crescia a produção de energia sustentável, maior era o fluxo de subsídios”, afirma Hey. No entanto, os subsídios foram financiados pelos contribuintes e pequenas e médias empresas, e ambos viram as suas contas de eletricidade disparar. O Institut der deutschen Wirtschaft, o Instituto nacional para a economia alemã – um grupo de reflexão financiado pelas empresas alemãs –, estima que a política energética custe 28,2 mil milhões de euros por ano. Isto significa que uma família média alemã paga 270 euros extra, por ano.

Entretanto os “investimentos verdes” estão a abrandar. Alcançar o objetivo de 45% de energia sustentável em 2025 implica a construção de grandes parques eólicos, e muitos alemães não são favoráveis a este cenário.

Esse não é o único problema, pois a energia solar e eólica não pode ser armazenada em baterias: têm de ser distribuídas pela rede no momento da produção. E a rede alemã de distribuição elétrica não está preparada para tal.

Mas, simultaneamente, muitos alemães não querem linhas de energia gigantes sobre as suas cabeças e casas. Angela Merkel afirmou que essas linhas deviam ser, tanto quanto possível, subterrâneas mas isso tem um custo de 3 a 8 mil milhões de euros, a adicionar aos já estimados 32 mil milhões de euros pela renovação da rede de distribuição.

Questões económicas

Cada vez mais políticos estão a afastar-se da Energiewende, devido ao seu elevado custo. O jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung calculou que, desde 2011, 100 mil milhões de euros tenham sido investidos e ainda venham a ser investidos mais 280 mil milhões de euros.

Christian Hey, no entanto, continua a acreditar no sucesso da Energiewende, afirmando que “Estes são os problemas iniciais. O caminho é claro. Só é necessário alguma coragem política para o seguir de forma consistente”.

Bruno Migge que está a tirar fotografias de casas abandonadas, em Immerath, torce o nariz quando mencionamos a Energiewende, afirmando que “não posso apelidar de verde um Governo que permite que municípios inteiros desapareçam dentro buracos profundos”.

Traduzido por Cláudia Sequeira

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